sábado, 22 de janeiro de 2011

Na Rotina das Horas

Laura Nessimian
Por hora, seguem tranqüilos os dias. Arrumo armários, dou coisas que não me servem mais e até algumas que ainda servem, mas são inúteis... Varro o chão, tiro o pó, espano daqui, espano dali, e assim, disfarçada de dona de casa, vou me arrumando por dentro... Pra todo canto que eu olho eu vejo bagunça. Preciso classificar as coisas, separar, guardar em espaços diferentes e limpos. Ah! Essa é uma tarefa infindável! Tem ainda a manutenção das coisas que vão se estragando, deteriorando com o tempo: Um lençol descosturado, coitado, precisa de mãos cuidadosas, precisa de linha e de uma boa agulha. Caso contrário o rombo no tecido vai aumentando, até que se rasgue por completo e aí... Não tem mais jeito. Isso, sem contar com as persianas que não fecham, sem falar das gavetas que não abrem, das canetas velhas que não escrevem mais e os trezentos e trinta e sete remédios com o prazo de validade vencido e que nenhuma criatura caridosa tem a piedade de jogá-los fora, para que tenham pelo menos, um destino digno.
Ainda há pouco eu estava totalmente distraída na deliciosa tarefa de não fazer nada quando ouvi gritinhos agudos que pareciam vir da minha escrivaninha. As duas gavetinhas estavam histéricas e quase afogadas num mar de papelinhos, tampinhas de canetas e numa horda incontrolável de bugigangas. Lá vou eu no meu ofício de arrumadeira, a paladina do lar, na luta incansável contra o caos e a desordem doméstica. E assim, vamos prosseguindo na rotina das horas. Fazendo o que precisa ser feito, sem reclamar e até com um leve contentamento de quem se acha necessária. Sim! As coisas precisam de mim. O que seriam dos panos de pratos encardidos? Dos sapatos mofados? Dos espelhos respingados de pasta de dente? Não sei por que, mas toda essa lida, ultimamente, me conforta e dá algum sentido para a minha vida.
Está aí, talvez, a simples resposta para um grande enigma. Viemos ao mundo para fazer pequenas coisas, sem questionar, sem preguiça e até mesmo sem grandes propósitos. Vamos costurando minúsculos retalhos coloridos, todos os dias... Resgatando laços, amizades perdidas, recuperando o brilho das relações verdadeiras e antigas. Quanto aos desacertos da vida? Aos erros? Às mágoas? Às tristezas? Eu digo o que dizia a minha avó. É no andar da carroça que as abóboras se ajeitam. Então, Vamos em frente, um dia após outro... Descascar batatas; arear panelas; retirar os insetos que caem dentro do lustre; cortar as unhas, pagar as contas; trocar lâmpadas; regar as plantas; fazer um bolo; deitar no chão da sala; dormir; sonhar e acordar cedo para trabalhar, que amanhã é outro dia e ninguém é de ferro.