quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A Ousadia tirou licença

Laura Nessimian

Você não ousa mais porque as coisas estão desse jeito ou as coisas estão desse jeito porque você não ousa mais? Li outro dia, essa frase, na revista “Caros Amigos” e súbito me transformei em um minúsculo inseto, preso na teia desse enigma. Afinal, o que veio antes o ovo ou a galinha? Deixemos as filosofias de lado, porque, nos dias de hoje não há mais tempo para devaneios e seremos devorados pela esfinge de qualquer maneira, decifrando ou não os seus mistérios... No entanto, companheiros, é necessário despertar! Resistir é inútil, cedo ou tarde, seremos assimilados pela verdade...
A rotina no posto de saúde começa bem cedo: filas enormes, senhas distribuídas, guardas na porta, crianças chorando, mães estressadas e velhos cansados. Nós, os homens de branco, estamos aguardando pelos que chegam e chegam muitos e chegam sempre. Trazem com eles as dores do mundo, a palidez da fome, a voz rouca de quem não pode mais gritar. Examinamos cuidadosamente seus corpos. Mas, são seus olhos sem brilho que denunciam as fracas batidas dos nossos próprios corações.
Será que nós, os profissionais da saúde, também estamos doentes ? Só há tempo para perguntar: Arde ? Coça ? ou Dói ? O paciente responde e sua resposta lhe dá direito a um remédio. Mas, quem cuidará de nós ? Precisamos de ferro e vitaminas porque a vontade anda anêmica. Não, a culpa não é da anorexia nervosa. Também não estamos negligenciando da alimentação. Os salários são baixos, mas, ainda podemos ingerir proteínas e a vocação nos sustenta. Talvez o grande vilão dos tempos modernos, o estresse, seja o causador da descalcificação de nossos ossos, levando-nos a esse estado de inércia paralítico-cataléptica. Estamos cansados sim, mas, esse cansaço não é um sintoma de preguiça ou descaso por tão nobre profissão. Há tantas formas de vida fácil, nos dias de hoje. Se enfrentamos a árdua e sofrida tarefa de promover a saúde pública, nesse país, é porque alguma coisa, dentro de nós, embora moribunda, ainda não morreu. Como poderemos curar, se o nosso próprio mal nos parece incurável. Toda doença tem uma causa, mas não basta descobri-la é preciso reagir. É preciso optar pela vida. É preciso ousar para sobreviver em um mundo pasteurizado. Por falar nisso, alguém viu a ousadia por aí ?
-Parece que foi tomar um cafezinho com pão de queijo, no bar da esquina.
O número 27456 ousa bater forte na porta. Senta-se na cadeira de ferro. Pergunto a ele o que deve ser perguntado. Verifico o que deve ser verificado e anoto o que deve ser anotado. Faço exatamente tudo que devo fazer. Cumpro as normas da instituição. Obedeço. Como prêmio, tenho o direito de ser humana, desde que meu perfil de humanidade não transgrida, é claro, o estabelecido. Posso até ter idéias novas, mas, que essas novas idéias não sejam antagônicas às antigas. Sou livre para exercer com qualidade e de forma criativa meu trabalho. Sou? Mas não sei porque, quando o 27456 sai do meu consultório, tenho a impressão de que minha liberdade foi passada no liquidificador. Tenho que reagir... Não sou apenas uma vitamina de banana. Antes de gritar: O Próximo, vou me derramando pelos corredores, saio correndo atrás do paciente. Peço que volte. Quero saber mais sobre ele. Talvez, em minha loucura, queira inverter os papéis. Espero que o doente me cure e me receite um remédio, um elixir, um chá de ervas, que possa clarear minha mente. Uma poção mágica que me deixe forte e desperta. Queria, de fato, poder escutar seu coração, mas, minhas pernas estão dormentes. Meus ouvidos estão ensurdecidos e minhas mãos atadas.
Num ímpeto vasculho armários e gavetas. Procuro, desesperada, a ousadia. Quem sabe o pessoal da faxina... Só encontro papéis, receituários, estatísticas. Meu Deus ! Será que jogaram a ousadia no lixo ? Talvez, esteja escondida no primeiro andar fazendo um eletrocardiograma. Quem sabe, um regime, com a nutricionista. - Não, doutora, diz a enfermeira, a senhora não sabe ? A ousadia tirou licença. Tropeçou na escada, está com o pé engessado. Vai ficar 45 dias em casa. -Será, que ela volta? -Não sei, não ! Sabe como é... Vinte anos de serviço público... Acho que vai emendar com uma licença especial até terminar o processo de aposentadoria...

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O ôvo de madeira

Laura Nessimian
Na casa velha tudo era velho: Colchas de renda, feitas à mão, livros de páginas poeirentas e amarelas e um sofá de veludo vermelho e de franjas que mais parecia um elefante de circo, dormindo no meio da sala. Caixinhas de todos os estilos e tamanhos guardavam surpresas e segredos de prata. No quarto da avó descansava o antigo guarda-roupas cor de rosa. Orgulhoso, imponente, ao centro o tal de brique a braque, muito em voga na época do rei Luiz XV. Lá dentro era o paraíso dos mistérios, um verdadeiro buraco negro. Flutuando no espaço , a caixa de costura exibia-se vencedora. Miss Universo, a preferida pelas crianças. Cheia de gavetinhas, divisórias. Forrada de charme e de cetim. Botões de todos os tipos, de madrepérola, de cristal, de madeira, e tinha aquele coberto com o mesmo tecido do vestido de baile.
Mas, era no último andar da caixa de vime onde morava o ôvo de madeira. Um inquilino estranho e tímido. De dentro dêle, com certeza não saiam pintos. Que utilidade então aquilo poderia ter ?
Eis o segredo: A avó enfiava o ôvo de madeira por de baixo da roupa rasgada. Passava horas imitando as aranhas do lustre, remendando fio por fio do tecido. Mãos cuidadosas... movimentos precisos e lentos reconstruiam o passado, salvando a vida das roupas. Aprisionando a matéria na trama da memória.
Agora, tudo mudou. Os objetos de valor foram leiloados. O que era antigo deu espaço para o que é novo, automático e descartável. O plástico, este perigoso alienígena, invadiu a Terra
Outro dia, procurei uma cerzideira para recuperar a velha calça jeans furada, companheira de tantas aventuras. Não encontrei. Parece que as cerzideiras também foram leiloadas. Uma dessas mocinhas pós modernas, das lojas de confecções, teve o desplante de me aconselhar a jogar fora a calça que segundo ela estava fora de moda.
Desorientada, andei sem destino pelas ruas da cidade, procurando antigas referências. Onde foi parar a casa velha ? a avó? A caixa de costura ? Para onde foram todos ? Se ao menos eu ainda tivesse o ovo de madeira...

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A culpa é da modernidade


Laura Nessimian

Outro dia, eu me perguntei: Crise, eu????? Imagina! Eu sou a criatura mais feliz e sortuda do planeta, afinal, ter tempo para sofrer com dignidade, privacidade e concentração é um luxo nessa vida... Remoer sentimentos, destilar lágrimas de perdas e desencantos é um privilégio de poucos nesse mundo de tantas injustiças e guerras de sobrevivência. Até porque, pensando bem, as tragédias são muito relativas. Para os artistas elas são fonte de inspiração. Para os amantes são um mal necessário. Sofrer é o caminho da libertação e do auto aperfeiçoamento, diriam os budistas. As portas do céu se abrirão para os bons cristãos que beberem o mesmo fel na taça de Jesus.
O problema é que eu sofro, tu sofres, mas nem sempre ele sofre.... Sofrer só se conjuga na primeira pessoa do singular. "Nós" nunca sofre. Sofrer em grupo é como colocar água no vinho ou na fervura. Não se deve jamais diluir a dor. Dor foi feita para doer bem doída. O que arde cura e o que aperta segura, já diziam os antigos.
E assim vamos continuando a fluir no labirinto da vida. Por vezes culpando as contingências, os pedregulhos inevitáveis dos nossos caminhos. Noutros momentos acusamos a sorte ou o azar pelo que nos acontece de bom ou ruim. Agora é chic colocar a culpa de tudo nas sincronicidades do universo. É evoluído subir nos pedestais da ciência e citar as máximas da física quântica. Mas, as pessoas sábias e simples dizem por aí que nada acontece por acaso. Então, eu me pergunto: Qual é a verdadeira causa dos acontecimentos? supondo que toda causa tenha uma consequência, qual seria a causa das causas? Por essa lógica devo concluir que toda consequência é uma causa em potencial? Em algum momento, nos recôndidos do universo profundo, uma super concentração de causas teria explodido e... Bang... ? Se fosse possível regredir cada vez mais na tragetória da origem causal, talvez fosse possível encontrar a "causa primordial " e elucidar, por fim, todos esses mistérios.
Eu creio que seja necessário contrariar a regra e fundar a “Ordem dos Sofredores Unidos”. Sim! Nós sofremos e sofreremos unidos e em harmonia para todo o sempre. Quem sabe assim o sofrimento não se transformaria em banalidade, em cotidiano? Seria como tomar banho ou escovar os dentes. A mãe, disciplinadora, perguntaria para o joãozinho:
- Meu filho, você já sofreu hoje?
Deixando as ironias de lado e voltando ao que interessa, falemos sobre o tempo, Cronus, o grande senhor e capataz das nossas vidas. Me parece que o problema não é o sofrimento, a dor, a angústia, o tédio... A grande tragédia humana deve estar localizada em meio aos ponteiros do relógio. Alíás, quem foi o filho da mãe que inventou essa geringonça? "Um dia salvarei o mundo". Depois das quatro estarei disponível para você, mas, só depois das quatro. Ainda sou muito jovem.... Agora estou velho demais...Quando eu puder.... Antes de morrer... Amanhã de manhã... Os ponteiros giram 360 graus e aprisionam a essência da vida em uma roda fictícia de números e pontinhos. Todos os dias abrimos os olhos, mas continuamos dormindo. É tão difícil despertar...Levanto, abro os olhos e tomo café. Continuo dormindo porque não tenho tempo para acordar. Claro, a pessoa tem que trabalhar, não é? Tem suas responsabilidades, seus compromissos. Tomo banho, me visto e sou um zmbí andando nos trilhos do metrô; eu e todos aqueles pontinhos de gente que embarcam e desembarcam nas estações. Mas parece que no espaço escuro e vazio, entre uma estação e outra, todos os pontinhos de gente se ascendem. Uma luz breve e fugaz...Um micro e imperceptível despertar... Até que um dia, sem aviso prévio, a criatura acorda para sempre, assim... do nada. Quer fechar os olhos e não consegue. Precisa desembarcar na próxima estação, mas o trem não para. Depois do escuro vem o escuro, depois da noite, outra noite... Sente sono, mas não pode dormir e se não dorme, também não sonha...
Então... vamos parar de conversa fiada e aceitar dignamente, os rufares dos tambores de Shiva! Que venham os tornados, os terremotos e as tissunamis! Vamos por fim, entender que a reconstrução só é possível depois da destruição. Vamos concordar com Roberto DaMatta, sim, ele está coberto de razão: Todo fim é começo e toda perda é necessária. Mas, pra gente não se sentir assim muito culpado, eu proponho sugerir que a grande vilã do século XXI seja a modenidade, a Velha Senhora, pragmática, utilitarista, quantitativa, determinista, capitalista, imperialista, emotivista, irredutível, idiosincrática, fragmentada, dilacerada... Arrebatada, desconstruída... Inacabada...

Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 2010