Laura Nessimian
Por hora, seguem tranqüilos os dias. Arrumo armários, dou coisas que não me servem mais e até algumas que ainda servem, mas são inúteis... Varro o chão, tiro o pó, espano daqui, espano dali, e assim, disfarçada de dona de casa, vou me arrumando por dentro... Pra todo canto que eu olho eu vejo bagunça. Preciso classificar as coisas, separar, guardar em espaços diferentes e limpos. Ah! Essa é uma tarefa infindável! Tem ainda a manutenção das coisas que vão se estragando, deteriorando com o tempo: Um lençol descosturado, coitado, precisa de mãos cuidadosas, precisa de linha e de uma boa agulha. Caso contrário o rombo no tecido vai aumentando, até que se rasgue por completo e aí... Não tem mais jeito. Isso, sem contar com as persianas que não fecham, sem falar das gavetas que não abrem, das canetas velhas que não escrevem mais e os trezentos e trinta e sete remédios com o prazo de validade vencido e que nenhuma criatura caridosa tem a piedade de jogá-los fora, para que tenham pelo menos, um destino digno.
Ainda há pouco eu estava totalmente distraída na deliciosa tarefa de não fazer nada quando ouvi gritinhos agudos que pareciam vir da minha escrivaninha. As duas gavetinhas estavam histéricas e quase afogadas num mar de papelinhos, tampinhas de canetas e numa horda incontrolável de bugigangas. Lá vou eu no meu ofício de arrumadeira, a paladina do lar, na luta incansável contra o caos e a desordem doméstica. E assim, vamos prosseguindo na rotina das horas. Fazendo o que precisa ser feito, sem reclamar e até com um leve contentamento de quem se acha necessária. Sim! As coisas precisam de mim. O que seriam dos panos de pratos encardidos? Dos sapatos mofados? Dos espelhos respingados de pasta de dente? Não sei por que, mas toda essa lida, ultimamente, me conforta e dá algum sentido para a minha vida.
Está aí, talvez, a simples resposta para um grande enigma. Viemos ao mundo para fazer pequenas coisas, sem questionar, sem preguiça e até mesmo sem grandes propósitos. Vamos costurando minúsculos retalhos coloridos, todos os dias... Resgatando laços, amizades perdidas, recuperando o brilho das relações verdadeiras e antigas. Quanto aos desacertos da vida? Aos erros? Às mágoas? Às tristezas? Eu digo o que dizia a minha avó. É no andar da carroça que as abóboras se ajeitam. Então, Vamos em frente, um dia após outro... Descascar batatas; arear panelas; retirar os insetos que caem dentro do lustre; cortar as unhas, pagar as contas; trocar lâmpadas; regar as plantas; fazer um bolo; deitar no chão da sala; dormir; sonhar e acordar cedo para trabalhar, que amanhã é outro dia e ninguém é de ferro.
sábado, 22 de janeiro de 2011
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
O que virá depois do “Despertar”?
Laura Nessimian
Estar consciente é poder fazer a cada instante o diagnóstico do nosso sofrimento para não perpetuar a própria dor. Olhar e entender a nossa ferida! Como é difícil arrancar o mal pela raiz! O mais cômodo é deixar a erva daninha crescer, fazer de conta que ela não está ali. Parece tão fácil ser feliz, principalmente quando lemos sobre isso em algum manual de auto-ajuda. A verdade nua e crua é que ser feliz dá muito trabalho. E como dói ter que fazer escolhas. Ou isto ou aquilo, como dizia Cecília Meireles. É preciso muita coragem para enxergar as coisas como elas são: Sem maquiagem, sem fantasias nem glamour. Não basta olhar a própria imagem refletida no lago. É preciso mergulhar nas águas escuras e frias e atravessá-la.
Estar consciente é poder fazer a cada instante o diagnóstico do nosso sofrimento para não perpetuar a própria dor. Olhar e entender a nossa ferida! Como é difícil arrancar o mal pela raiz! O mais cômodo é deixar a erva daninha crescer, fazer de conta que ela não está ali. Parece tão fácil ser feliz, principalmente quando lemos sobre isso em algum manual de auto-ajuda. A verdade nua e crua é que ser feliz dá muito trabalho. E como dói ter que fazer escolhas. Ou isto ou aquilo, como dizia Cecília Meireles. É preciso muita coragem para enxergar as coisas como elas são: Sem maquiagem, sem fantasias nem glamour. Não basta olhar a própria imagem refletida no lago. É preciso mergulhar nas águas escuras e frias e atravessá-la.
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Belas histórias, gotas de esperança
Laura Nessimian
O fato é que acabamos, mesmo, nos acostumando com as piores coisas do mundo. Depois de um tempo, o corpo e a alma não reconhecem mais o que é bom, A gente vai achando normal não falar com o vizinho, passar por cima de pessoas caidas na rua. Vira rotina, a falta de sensibilidade, a intolerância, falar mal do colega de trabalho. De repente, a competição é apenas um jôgo inconseqüente, ou pior, tranforma-se em uma habilidade fundamental à sobrevivência. Tudo isso vai acontecendo devagarinho, sem que a gente perceba. Quando o indivíduo se dá conta, nota que está viciado em tragédias e violências. A técnologia está sempre lá, salvadora, exibindo pela internet as cenas, na íntegra, sem cortes. Uma realidade virtual vermelha! Prisioneiros torturados... Ah! Que pena! A televisão não mostrou a melhor parte! Cortaram bem na hora que o camarada ia ser degolado! Primeiro, isso só acontece na ficção. Nada de filmes água com açucar, romances piegas, aventuras saudáveis. Não! Se não tiver sangue, crueldades, vingança, não tem a menor graça. Depois a sede de coisas ruins, só é aplacada com a fatídica realidade. O jornal da telinha tem obrigação de nos fornecer más notícias. Centenas, milhares de mortes. Injustiças, humilhações, ganâncias, jôgo de poder, causando a distruição de bilhões, trilhões de pessoas! A fome não basta! Crianças esquálidas, esqueléticas, comendo cáctos para sobreviver, são apenas cenas do cotidiano. Não passam de reportagens, bem filmadas e bem redigidas que geram prêmios jornalísticos importantes. Então, inventamos o monstro da obesidade, que é feio, enorme e muito mais assustador...A fome vai ficando pequenininha e insignificante. Fica até bonita, em preto e branco, no concurso de melhor foto do ano, ou na revista por sobre a mesinha de jacarandá, da sala de estar, da cobertura dos socialistas da Gávea.
Assim, vamos realmente, ficando viciados nas piores coisas da vida. Céu e inferno se confundem. Vida e morte são a mesma coisa e nenhuma das duas tem o menor valor. Quem sabe, quando a indesejável chegar, seja finalmente possível, despertar? Quem sabe, a eternidade nos possa redimir? Afinal, como diz o diabo, cada um tem o inferno que merece. Sim, é verdade. Mas, também é real o que disse o grande Chico Xavier: “O mundo precisa de histórias felizes”. Então, vamos escrevê-las... Belas histórias, por favor, eu peço a todos os escritores do mundo.. Que as suas palavras sejam gotas de esperança, raios de luz sobre o oceano escuro do que chamam por aí, de vida real...
O fato é que acabamos, mesmo, nos acostumando com as piores coisas do mundo. Depois de um tempo, o corpo e a alma não reconhecem mais o que é bom, A gente vai achando normal não falar com o vizinho, passar por cima de pessoas caidas na rua. Vira rotina, a falta de sensibilidade, a intolerância, falar mal do colega de trabalho. De repente, a competição é apenas um jôgo inconseqüente, ou pior, tranforma-se em uma habilidade fundamental à sobrevivência. Tudo isso vai acontecendo devagarinho, sem que a gente perceba. Quando o indivíduo se dá conta, nota que está viciado em tragédias e violências. A técnologia está sempre lá, salvadora, exibindo pela internet as cenas, na íntegra, sem cortes. Uma realidade virtual vermelha! Prisioneiros torturados... Ah! Que pena! A televisão não mostrou a melhor parte! Cortaram bem na hora que o camarada ia ser degolado! Primeiro, isso só acontece na ficção. Nada de filmes água com açucar, romances piegas, aventuras saudáveis. Não! Se não tiver sangue, crueldades, vingança, não tem a menor graça. Depois a sede de coisas ruins, só é aplacada com a fatídica realidade. O jornal da telinha tem obrigação de nos fornecer más notícias. Centenas, milhares de mortes. Injustiças, humilhações, ganâncias, jôgo de poder, causando a distruição de bilhões, trilhões de pessoas! A fome não basta! Crianças esquálidas, esqueléticas, comendo cáctos para sobreviver, são apenas cenas do cotidiano. Não passam de reportagens, bem filmadas e bem redigidas que geram prêmios jornalísticos importantes. Então, inventamos o monstro da obesidade, que é feio, enorme e muito mais assustador...A fome vai ficando pequenininha e insignificante. Fica até bonita, em preto e branco, no concurso de melhor foto do ano, ou na revista por sobre a mesinha de jacarandá, da sala de estar, da cobertura dos socialistas da Gávea.
Assim, vamos realmente, ficando viciados nas piores coisas da vida. Céu e inferno se confundem. Vida e morte são a mesma coisa e nenhuma das duas tem o menor valor. Quem sabe, quando a indesejável chegar, seja finalmente possível, despertar? Quem sabe, a eternidade nos possa redimir? Afinal, como diz o diabo, cada um tem o inferno que merece. Sim, é verdade. Mas, também é real o que disse o grande Chico Xavier: “O mundo precisa de histórias felizes”. Então, vamos escrevê-las... Belas histórias, por favor, eu peço a todos os escritores do mundo.. Que as suas palavras sejam gotas de esperança, raios de luz sobre o oceano escuro do que chamam por aí, de vida real...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Devaneios de Laura
Sei que em algum lugar do planeta há de existir uma luz no fim do túnel. Enquanto isso, vamos fazendo o que tem que ser feito, não é? Seguindo o fluxo do rio que sempre corre pro mar. Vamos tentando esvaziar o oceano com um baldinho. Procurando encontrar agulhas mágicas no palheiro e contabilizando as estrelas do céu.
Gostaria de continuar escrevendo sobre coisas abstratas e filosóficas mas, o relógio é implacável e já gritou enfurecido o meu nome: "Laura! Sua inconsequente, deixe de devaneios e vai cuidar das coisa práticas da vida". Eu obedeço!
E digo mais: SEJA FELIZ TOCANDO PANDEIRO
http://tocandopandeiro.wordpress.com/
Gostaria de continuar escrevendo sobre coisas abstratas e filosóficas mas, o relógio é implacável e já gritou enfurecido o meu nome: "Laura! Sua inconsequente, deixe de devaneios e vai cuidar das coisa práticas da vida". Eu obedeço!
E digo mais: SEJA FELIZ TOCANDO PANDEIRO
http://tocandopandeiro.wordpress.com/
Acreditar...
Não importa o que diz a ciência. A lógica, para mim, é só a ponta do iceberg. A mente, essa terrível ditadora, pensa que sabe, mas não "saboreia" a verdade... Basta de estatísticas e evidências inconstestáveis!Só me interessa o que ainda não foi provado. "O mundo precisa de histórias felizes". Não! não quero saber de fatos reais. Quero acreditar no inacreditável. Existirá vida após a vida? Quem sabe?
http://www.nossolarofilme.com.br/
http://www.nossolarofilme.com.br/
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Pulsar
Laura Nessimian
Perdida na escuridão dos espaços
Me acho em ti, quando me achas!
Olha através das vidraças!
Me escondo nua, atrás do dia
No calar das curvas tortas da rua
Entre o pulsar discreto dos teus passos
E tu? Onde andas nessa noite fria,
Que não me encontras nos teus braços?
Perdida na escuridão dos espaços
Me acho em ti, quando me achas!
Olha através das vidraças!
Me escondo nua, atrás do dia
No calar das curvas tortas da rua
Entre o pulsar discreto dos teus passos
E tu? Onde andas nessa noite fria,
Que não me encontras nos teus braços?
quinta-feira, 15 de julho de 2010
O Mar Improvável
Laura Nessimian
A melhor praia
É a praia de segunda feira:
O mar impossível,
O mar improvável...
Na hora do almoço,
Escapar do trabalho.
Sair disfarçado,
Em roupas de banho,
Escondidas por baixo.
Um volto já, amarelo!
Um sorriso de lado...
Respirar profundo o oceano.
Mergulhar proibido e fugidio.
Depois, voltar totalmente alimentado.
Refeito, cínico, vingado!
Dono de um secreto,
Precioso extravio.
A melhor praia
É a praia de segunda feira:
O mar impossível,
O mar improvável...
Na hora do almoço,
Escapar do trabalho.
Sair disfarçado,
Em roupas de banho,
Escondidas por baixo.
Um volto já, amarelo!
Um sorriso de lado...
Respirar profundo o oceano.
Mergulhar proibido e fugidio.
Depois, voltar totalmente alimentado.
Refeito, cínico, vingado!
Dono de um secreto,
Precioso extravio.
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