quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Belas histórias, gotas de esperança

Laura Nessimian
O fato é que acabamos, mesmo, nos acostumando com as piores coisas do mundo. Depois de um tempo, o corpo e a alma não reconhecem mais o que é bom, A gente vai achando normal não falar com o vizinho, passar por cima de pessoas caidas na rua. Vira rotina, a falta de sensibilidade, a intolerância, falar mal do colega de trabalho. De repente, a competição é apenas um jôgo inconseqüente, ou pior, tranforma-se em uma habilidade fundamental à sobrevivência. Tudo isso vai acontecendo devagarinho, sem que a gente perceba. Quando o indivíduo se dá conta, nota que está viciado em tragédias e violências. A técnologia está sempre lá, salvadora, exibindo pela internet as cenas, na íntegra, sem cortes. Uma realidade virtual vermelha! Prisioneiros torturados... Ah! Que pena! A televisão não mostrou a melhor parte! Cortaram bem na hora que o camarada ia ser degolado! Primeiro, isso só acontece na ficção. Nada de filmes água com açucar, romances piegas, aventuras saudáveis. Não! Se não tiver sangue, crueldades, vingança, não tem a menor graça. Depois a sede de coisas ruins, só é aplacada com a fatídica realidade. O jornal da telinha tem obrigação de nos fornecer más notícias. Centenas, milhares de mortes. Injustiças, humilhações, ganâncias, jôgo de poder, causando a distruição de bilhões, trilhões de pessoas! A fome não basta! Crianças esquálidas, esqueléticas, comendo cáctos para sobreviver, são apenas cenas do cotidiano. Não passam de reportagens, bem filmadas e bem redigidas que geram prêmios jornalísticos importantes. Então, inventamos o monstro da obesidade, que é feio, enorme e muito mais assustador...A fome vai ficando pequenininha e insignificante. Fica até bonita, em preto e branco, no concurso de melhor foto do ano, ou na revista por sobre a mesinha de jacarandá, da sala de estar, da cobertura dos socialistas da Gávea.
Assim, vamos realmente, ficando viciados nas piores coisas da vida. Céu e inferno se confundem. Vida e morte são a mesma coisa e nenhuma das duas tem o menor valor. Quem sabe, quando a indesejável chegar, seja finalmente possível, despertar? Quem sabe, a eternidade nos possa redimir? Afinal, como diz o diabo, cada um tem o inferno que merece. Sim, é verdade. Mas, também é real o que disse o grande Chico Xavier: “O mundo precisa de histórias felizes”. Então, vamos escrevê-las... Belas histórias, por favor, eu peço a todos os escritores do mundo.. Que as suas palavras sejam gotas de esperança, raios de luz sobre o oceano escuro do que chamam por aí, de vida real...

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