Laura Nessimian
Na casa velha tudo era velho: Colchas de renda, feitas à mão, livros de páginas poeirentas e amarelas e um sofá de veludo vermelho e de franjas que mais parecia um elefante de circo, dormindo no meio da sala. Caixinhas de todos os estilos e tamanhos guardavam surpresas e segredos de prata. No quarto da avó descansava o antigo guarda-roupas cor de rosa. Orgulhoso, imponente, ao centro o tal de brique a braque, muito em voga na época do rei Luiz XV. Lá dentro era o paraíso dos mistérios, um verdadeiro buraco negro. Flutuando no espaço , a caixa de costura exibia-se vencedora. Miss Universo, a preferida pelas crianças. Cheia de gavetinhas, divisórias. Forrada de charme e de cetim. Botões de todos os tipos, de madrepérola, de cristal, de madeira, e tinha aquele coberto com o mesmo tecido do vestido de baile.
Mas, era no último andar da caixa de vime onde morava o ôvo de madeira. Um inquilino estranho e tímido. De dentro dêle, com certeza não saiam pintos. Que utilidade então aquilo poderia ter ?
Eis o segredo: A avó enfiava o ôvo de madeira por de baixo da roupa rasgada. Passava horas imitando as aranhas do lustre, remendando fio por fio do tecido. Mãos cuidadosas... movimentos precisos e lentos reconstruiam o passado, salvando a vida das roupas. Aprisionando a matéria na trama da memória.
Agora, tudo mudou. Os objetos de valor foram leiloados. O que era antigo deu espaço para o que é novo, automático e descartável. O plástico, este perigoso alienígena, invadiu a Terra
Outro dia, procurei uma cerzideira para recuperar a velha calça jeans furada, companheira de tantas aventuras. Não encontrei. Parece que as cerzideiras também foram leiloadas. Uma dessas mocinhas pós modernas, das lojas de confecções, teve o desplante de me aconselhar a jogar fora a calça que segundo ela estava fora de moda.
Desorientada, andei sem destino pelas ruas da cidade, procurando antigas referências. Onde foi parar a casa velha ? a avó? A caixa de costura ? Para onde foram todos ? Se ao menos eu ainda tivesse o ovo de madeira...
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
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Poxa, até eu fiquei com saudade do Ovo de Madeira :-(
ResponderExcluirAnalu, você adorava brincar com a caixinha de costura da vovó Zilda... passava horas tirando e guardando os botões, abrindo e fechando as gavetinhas...
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