Laura Nessimian
Outro dia, eu me perguntei: Crise, eu????? Imagina! Eu sou a criatura mais feliz e sortuda do planeta, afinal, ter tempo para sofrer com dignidade, privacidade e concentração é um luxo nessa vida... Remoer sentimentos, destilar lágrimas de perdas e desencantos é um privilégio de poucos nesse mundo de tantas injustiças e guerras de sobrevivência. Até porque, pensando bem, as tragédias são muito relativas. Para os artistas elas são fonte de inspiração. Para os amantes são um mal necessário. Sofrer é o caminho da libertação e do auto aperfeiçoamento, diriam os budistas. As portas do céu se abrirão para os bons cristãos que beberem o mesmo fel na taça de Jesus.
O problema é que eu sofro, tu sofres, mas nem sempre ele sofre.... Sofrer só se conjuga na primeira pessoa do singular. "Nós" nunca sofre. Sofrer em grupo é como colocar água no vinho ou na fervura. Não se deve jamais diluir a dor. Dor foi feita para doer bem doída. O que arde cura e o que aperta segura, já diziam os antigos.
E assim vamos continuando a fluir no labirinto da vida. Por vezes culpando as contingências, os pedregulhos inevitáveis dos nossos caminhos. Noutros momentos acusamos a sorte ou o azar pelo que nos acontece de bom ou ruim. Agora é chic colocar a culpa de tudo nas sincronicidades do universo. É evoluído subir nos pedestais da ciência e citar as máximas da física quântica. Mas, as pessoas sábias e simples dizem por aí que nada acontece por acaso. Então, eu me pergunto: Qual é a verdadeira causa dos acontecimentos? supondo que toda causa tenha uma consequência, qual seria a causa das causas? Por essa lógica devo concluir que toda consequência é uma causa em potencial? Em algum momento, nos recôndidos do universo profundo, uma super concentração de causas teria explodido e... Bang... ? Se fosse possível regredir cada vez mais na tragetória da origem causal, talvez fosse possível encontrar a "causa primordial " e elucidar, por fim, todos esses mistérios.
Eu creio que seja necessário contrariar a regra e fundar a “Ordem dos Sofredores Unidos”. Sim! Nós sofremos e sofreremos unidos e em harmonia para todo o sempre. Quem sabe assim o sofrimento não se transformaria em banalidade, em cotidiano? Seria como tomar banho ou escovar os dentes. A mãe, disciplinadora, perguntaria para o joãozinho:
- Meu filho, você já sofreu hoje?
Deixando as ironias de lado e voltando ao que interessa, falemos sobre o tempo, Cronus, o grande senhor e capataz das nossas vidas. Me parece que o problema não é o sofrimento, a dor, a angústia, o tédio... A grande tragédia humana deve estar localizada em meio aos ponteiros do relógio. Alíás, quem foi o filho da mãe que inventou essa geringonça? "Um dia salvarei o mundo". Depois das quatro estarei disponível para você, mas, só depois das quatro. Ainda sou muito jovem.... Agora estou velho demais...Quando eu puder.... Antes de morrer... Amanhã de manhã... Os ponteiros giram 360 graus e aprisionam a essência da vida em uma roda fictícia de números e pontinhos. Todos os dias abrimos os olhos, mas continuamos dormindo. É tão difícil despertar...Levanto, abro os olhos e tomo café. Continuo dormindo porque não tenho tempo para acordar. Claro, a pessoa tem que trabalhar, não é? Tem suas responsabilidades, seus compromissos. Tomo banho, me visto e sou um zmbí andando nos trilhos do metrô; eu e todos aqueles pontinhos de gente que embarcam e desembarcam nas estações. Mas parece que no espaço escuro e vazio, entre uma estação e outra, todos os pontinhos de gente se ascendem. Uma luz breve e fugaz...Um micro e imperceptível despertar... Até que um dia, sem aviso prévio, a criatura acorda para sempre, assim... do nada. Quer fechar os olhos e não consegue. Precisa desembarcar na próxima estação, mas o trem não para. Depois do escuro vem o escuro, depois da noite, outra noite... Sente sono, mas não pode dormir e se não dorme, também não sonha...
Então... vamos parar de conversa fiada e aceitar dignamente, os rufares dos tambores de Shiva! Que venham os tornados, os terremotos e as tissunamis! Vamos por fim, entender que a reconstrução só é possível depois da destruição. Vamos concordar com Roberto DaMatta, sim, ele está coberto de razão: Todo fim é começo e toda perda é necessária. Mas, pra gente não se sentir assim muito culpado, eu proponho sugerir que a grande vilã do século XXI seja a modenidade, a Velha Senhora, pragmática, utilitarista, quantitativa, determinista, capitalista, imperialista, emotivista, irredutível, idiosincrática, fragmentada, dilacerada... Arrebatada, desconstruída... Inacabada...
Rio de Janeiro, 05 de fevereiro de 2010

Oi Mami! Parabéns pela estréia do Blog!
ResponderExcluirADOREI o texto, acho que você está no caminho certo :-)
Agora corre pra aproveitar o fim do dia... hehehe!!
beijossss,
Grande Laura!
ResponderExcluirMuito bom o texto.
Envolvente e capaz de prolongar os ponteiros da geringonça, que mesmo girando e correndo para completar mais um ciclo de 360 graus, nos da uma pequena ilusão que foi mais difícil e pesado, para ele, pois energizamos a essência da vida que quase sempre esta realmente aprisionada e tonta do girar. Ou ainda, acorrentada pelos cantos retos da geringonça digital.
Laura,
ResponderExcluiralém dos outros atributos vc agora é uma filósofa. Bom podermos refletir juntos questões que são comuns a humanidade. E se o sofrimento trouxer inspiração acho que não deve mais se chamar sofrimento pq agora é produtivo. Seria um sofrimento pró ativo? Transofrer. E vale a pena transofrer? É melhor a alienação?aliviação? Bjs
Sim amigos!!Essa é a idéia... refletir, despertar... "morrer, dormir, sonhar, talvez..."
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